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[RESENHA] O peso do pássaro morto | Aline Bei

  • Foto do escritor: Jéfita Castro
    Jéfita Castro
  • 10 de dez. de 2021
  • 3 min de leitura

Descrição do livro: Capa em fundo roxo, com listras pretas na horizontal sob o título e nome da autora.

Título: O peso do pássaro morto

Autora: Aline Bei

Idioma original: Português

Editora: NÓS

Publicação: 2017

Páginas: 138

 

Caso tivessem encontrado sua carta, naquela casa rodeada de mato envelhecido, talvez, você não desaparecesse sem nome, como se não pertencesse a ninguém, fosse desprovida de passado, lágrimas, segredos, ou não possuísse a dor do que fez e faz falta, de não ter tido alguém, humano suficiente, para amar mutuamente.


“Carta era um ótimo jeito de dizer que se amava alguém porque às vezes falando a pessoa não entende nada ou escuta pouco pensando em outras coisas. – escrever é mais forte.”

O peso do pássaro morto, da escritora brasileira Aline Bei, narra a trajetória de uma mulher, de sua infância, a partir dos oito anos, até o princípio da velhice, aos 52 anos. Por mais que, ao passar o olho rapidamente pelas páginas e estimar que seja um conto poético de fácil alcance, do encontro da palavra ou leitor, receptor da mensagem, ele não é. Ele é maior, é absurdo, desnuda e desconstrói o que o leitor presume ser capaz de suportar. Quando o livro te “olha” de volta ele espera uma resposta: o que você sentiu?


“quando um bebê nasce é preciso contar devagar pra ele sobre a terra, o futuro espera numa concha.”

A narrativa inicial, cativante, começa com a infância, trazendo mais uma vez aquela conexão, a de berço, de ver a personagem pequena ao alcance das mãos, como se a segurasse no colo. A menina, era diferente por ser ela, com seu medo por borboletas, seu apreço pelo vizinho benzedor, que sempre tinha uma reza na ponta da língua, com uma cura para sua garganta, e sua forma de perguntar do mundo. As pausas e a respiração não andam juntas, nesse capítulo, falta o fôlego e algumas pontuações propositais, afinal, a própria criança, com todo o conhecimento de palavra que tinha, dando abertura à sua história. Se desdobrando como pode, a personagem inominada, abre espaço para o leitor recordar da própria ingenuidade, as dúvidas que, um dia, não sabíamos as respostas, transmitem a falta e as lacunas incompletas a esmo, encontrando (as respostas) em outros lugares.


perguntei pra minha mãe:

– o que é morrer?

ela estava fritando bife pro almoço.


– o bife é morrer,

porque morrer é não poder mais escolher o que farão com a sua carne. quando estamos vivos,

muitas vezes também não escolhemos. mas tentamos.

almoçamos a morte e foi calado.


A garota se torna mulher, ainda que muito jovem, e as palavras tomam firmeza, por mais que, algumas vezes, dancem nas páginas, mostrando que ainda possuía aquela menina dentro de si. É nessa idade 17, 18 anos, que sentimos que é possível abraçar o mundo, tê-lo nas mãos, que o nada e o vazio não existem, que tudo é preenchido. Deleite. A menina-mulher, se torna mãe, que se torna avó, que se torna... Bom, não tomo a responsabilidade de contar, parte por parte, o que nas palavras de Aline Bei soam muito melhor. É preciso ter a experiência de primeiro impacto por conta própria — quem ela é? E só descobrimos as respostas com o próprio esforço, abrindo e passando as páginas.


Um aviso, para aqueles que neste momento estão em uma situação emocionalmente instável: o livro talvez deva ser lido em outra oportunidade, podendo causar-lhes gatilhos extremos, devido a capacidade crua dos fatos expostos. Tenha limites, blinde-se e, quando puder, questione-se por meio da leitura — o quanto é capaz?


Atenciosamente, Jéfita Castro.

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